Que calor infernal, pensou ela, que havia acabado de chegar magicamente na entrada de Zullah, a cidade fronteiriça com o deserto. Às suas costas estava a escadaria que conduz à entrada da cidade a partir do mar de areia, à sua frente, algumas barracas de comerciantes em uma espécie de corredor que leva à cidade em si. Em meio aos chamados dos comerciantes tentando vender suas mercadorias, percebeu que o item mais valioso nas barracas eram garrafas de água. Após uma viagem pelo deserto, nada mais natural que os viajantes estejam dipostos a pagar caro pelo refresco, infelizes daqueles que não podem desfrutar de meios mágicos de deslocamento, pensou a jovem de castanhos e compridos cabelos desgrenhados, enquanto caminhava em direção ao centro da cidade. Já havia estado em Zullah algumas vezes antes, de modo que não impressionou-se com as características daquele povo, cuja pele era escurecida e envelhecida pelo sol constante, apesar do uso de volumosas capas protetoras. Seguiu seu rumo observando as construções e acariciando seu melhor e mais fiel companheiro, um tipo de morcego que agora estava pendurado em seu pingente, o qual simula um poleiro. O pequeno animal, nomeado de Rusty pela estranha jovem, de fato, parecia-se muito com um morcego, mas aqueles que olhavam com atenção percebiam que os olhos eram saltados, a membrana das asas tinha um aspecto estranho, com algumas protuberâncias e os sons produzidos eram levemente diferentes de um morcego comum. Ninguém deu muita importância ao fato, entretanto.
Perdida em pensamentos, quando deu por si, a jovem estava em frente a uma grande construção esculpida em pedra, sem janelas. Uma escadaria de pedra conduzia à porta de duas folhas, em cuja madeira haviam alguns símbolos entalhados. Subiu as escadas, abriu a grande porta, notando que esta era bem mais leve do que parecia, e deparou-se com um corredor todo de pedra, com cerca de 3 metros de comprimento, finalizado por uma porta de folha única, em cuja porção superior haviam vitrais. Ao lado direito da porta havia uma espécie de lápide esculpida na pedra da parede onde estava escrito nas mais diversas línguas a palavra "Silêncio", ao lado esquerdo havia uma espécie de recipiente, pequeno e levemente aquadradado, também esculpido na pedra, com uma pequena fenda na face superior, que parecia revelar um interior oco. Tentou abrir a porta e a encontou trancada. Pensou um pouco, olhou ao redor e depositou uma moeda de cobre na pequena fenda, esperou, e nada aconteceu. Tentou abrir a porta e esta continuava trancada. Dez moedas de cobre equivalem a uma de prata, dez de prata a uma de ouro e dez de ouro a uma de platina, pensando nas equivalências, depositou uma moeda de ouro, sentindo-se saqueada mediante tamanho custo para consulta a livros. Nada aconteceu. Tentou abrir a porta e percebeu que esta estava destrancada, entrou, então, na biblioteca de Zullah, uma das maiores de que se tem conhecimento. Deparou-se com outro corredor também esculpido na pedra, de cerca de 3 metros de comprimento e finalizado por uma porta. Logo no início do corredor havia um balcão atras do qual estava uma elfa, aparentando cerca de 30 anos humanos, trajando um vestido simples e com os cabelos presos em uma trança totalmente desgrenhada para o padrão élfico. Que lugar estranho, pensou a jovem, elfos, seres quase eternos comparados à uma vida humana, em seus 700 anos de existência costumam ser mais belos e cuidadosos com sua aparência, orelhas tão pontudas e rostos de traços tão finos praticamente denunciam certo grau de futilidade, porém isso não se verifica com esta, deve ser a convivência com humanos, concluiu a moça. A elfa olhou para a jovem e seu morcego, reparou com certo desdém que a vestimenta da humana era composta de apenas um vestido longo, mangas curtas, levemente rodado e acinturado, relativamente surrado e não completamente limpo, o qual outrora havia sido em algum tom de azul, associado a uma leve sandália nos pés empoeirados. Perguntou, então:
- Em que posso ajudá-la?
- Vim em busca de conhecimento a respeito de deuses e seus planos de criação e existência.
A elfa virou-se e passou a analisar um enorme bloco de pedra onde estavam penduradas diversas chaves, certamente haviam mais de cem, meticulosamente organizadas. Escolheu uma, entregou à jovem e disse apenas para seguir o corredor e entrar na porta do final. A jovem percorreu o corredor pensando em quão diferente era a organização da biblioteca de Zullah. Destrancou a porta com a chave que lhe foi dada e adentrou em uma grande sala. Teve certeza que aquela porta na verdade era um portal mágico, o qual conduzia a algum outro plano, ou pelo menos algum outro local ainda dentro do plano material(*) que não uma sala imediatamente após a porta. Olhou ao redor e analizou o local. Era uma sala esculpida na pedra, retangular, medindo cerca de 15 metros comprimento por 10 metros de largura, com cerca de 10 metros de altura. Nos primeiros 5 metros de sala haviam 4 grandes mesas para estudo, duas a cada lado da porta de entrada. O restante da sala era ocupado por estantes contendo livros, sendo que as paredes também possuím livros, como uma estante embutida esculpida na pedra. Havia duas colunas de prateleiras, sendo que cada coluna era composta de doze estantes, cada uma com cerca de dez metros de altura, havia uma escada em cada um dos lados de cada estante. Cada uma das estantes era uma continuidade do chão ao teto, meticulosamente esculpidas. Ao lado da porta havia um homem parado, humano, gordinho, que deveria ser funcionário da biblioteca. Além dela, havia apenas mais um homem estudando no local, humano, aparentando seus 35 anos, cabelo escuro e curto, pele clara. Estava sentado em uma mesa distante cercado de livros e anotações, completamente absorto em pensamentos. Trajava um belo casaco azul, não condizente com o calor de Zullah, o restante da roupa estava escondido pela mesa, parecia carregar apenas uma leve sacola de couro e uma espada curta embainhada sobre a mesa. Após a análise a jovem concluiu que o restante do acervo da biblioteca deveria estar guardado em algum outro local, acessível apenas com a chave correta para abrir o portal.
Escolheu os livros desejados, sentou-se e começou a formular um encantamento. Notou que a magia não havia funcionado, sem enteder o porquê, concentrou-se e tentou buscar respostas, quando, então, percebeu que o funcionário da biblioteca estava ao seu lado terminando de completar uma frase:
- ... não é pemitido aqui.
- Aahn?!?
- Não é permitido o uso de magias dentro da biblioteca.
- Hm, mas essa magia não é danosa, apenas fará com que eu entenda a idéia geral do livro com um toque, economizando tempo para que, então, se for do interesse, eu o estude com mais afinco posteriormente. Er... hum... hã... com quem eu posso falar para pedir permissão para usar apenas essa magia?
- Acompanhe-me, senhora.
A jovem maga foi levada ao encontro do que ela acreditou ser o encarregado pela ordem da biblioteca. Após alguns minutos de conversa foi-lhe permitido o uso daquela, e apenas daquela magia, todas as demais continuariam sendo bloqueadas. Se não houvesse tamanha proteção, também não haveria tamanho acervo, pensou a maga. Voltou, então, à sala de estudos e recomeçou suas pesquisas com mais afinco do que nunca, afinal, nunca havia estado tão perto de, finalmente, encontrar o caminho de volta para o lugar onde, há tanto tempo, havia sido enviada contra sua vontade, apriosionada e usada por tempo suficiente para gerar uma prole, após perder a utilidade mandada de volta, forçando-a a abandonar um pedaço seu que lá estava. Sim, em breve atingiria o objetivo que tanto almeja.
***
Neste momento adentra o recinto de estudos um meio-elfo, raça mestiça fruto da cruza direta entre humanos e elfos, suas feições são finas como as de um elfo, porém com um toque rústico característico dos humanos. Face de traços delicados e orelhas afiladas, herdadas dos elfos, contrastam com um rosto levemente barbado e músculos mais proeminentes, resquício da herança humana. O meio-elfo de pele clara e lisos cabelos castanho-claro, prende-os em um "rabo-de-cavalo" apenas para que que não lhe caiam no rosto, veste-se com um robe característico dos monastérios em cujo peito há bordado o Berimbau de Baiano, símbolo do deus criador, calça sandálias e carrega uma leve mochila nas costas, não porta armas. Fecha, então, a porta que havia aberto, cumprimenta o funcionário da biblioteca e dirige-se às estantes. Escolhe os livros de seu interesse e senta-se em uma mesa a meio caminho entre a jovem maga e o homem absorto em pensamentos. Em silêncio, o monge começa sua pesquisa sobre o panteão local de Zullah, em busca de melhores argumentos que facilitem sua missão de levar a palavra e o poder de Baiano para os habitantes locais. Buscava meios para que sua missão, como servo de Baiano, pudesse ser cumprida, almejando sempre a comunhão entre corpo, mente e fé.
Em silêncio, cada qual com seus objetivos e medos, todos, individualmente, consumavam sua busca sem jamais imaginar o que estava prestes a acontecer.